
O Cinema Segundo Eduardo Coutinho
“É a minha organização da narração
deles: então são narrações de
narrações, são contar histórias
sobre o contar histórias. Tem uma base documental,
real, se você quiser chamar assim, e tem uma base também
ficcional, porque na verdade as pessoas fabulam. Fabular não
é nem mentir nem dizer verdades; fabular é falar
da vida”. Desse modo o diretor e roteirista Eduardo
Coutinho define os personagens de seus documentários,
normalmente pessoas comuns, desconhecidas do grande público.
Indivíduos que só virarão notícia
na imprensa se, por ventura, cometerem crimes ou sofrerem
tragédias naturais.
O
depoimento está no livro O Cinema Segundo Eduardo
Coutinho. A obra é uma transcrição
de uma longa conversa do jornalista e crítico de cinema
italiano Claudio M. Valentinetti com Coutinho. O diretor comenta
toda sua vida profissional. Descobrimos que ele passou três
anos na França, estudando no prestigioso IDHEC (Instituto
de Altos Estudos Cinematográficos), mas não
gostou porque os professores não tinham prática
cinematográfica e que entre suas principais influências
estão grandes nomes do cinema de ficção
como Luis Buñuel, Fritz Lang, Jean Renoir e Jean-Luc
Godard.
Sua estréia como documentarista aconteceu por acaso.
Estava acompanhando a UNE Volante, comitiva de estudantes
que percorreu os grandes centros universitários do
país em 1964, quando conheceu a história do
líder paraibano das Ligas Camponesas, João Pedro
Teixeira, assassinado brutalmente em 1962. A filmagem foi
interrompida pelos militares e retomada após 17 anos,
quando se tornou o clássico Cabra Marcado para
Morrer. Entre esse filme e Santo Forte, foram
15 anos sem filmar. Nesse meio-período foi roteirista
de ficção de filmes de sucesso (Dona Flor
e Seus Dois Maridos, Lição de Amor, A Falecida,
entre outros) trabalhou como jornalista no Jornal do Brasil
e como documentarista no Globo Repórter, onde ficou
nove anos.
De maneira bem franca e direta, ele ensina aos jovens cineastas
como conseguir depoimentos verdadeiros dos personagens: “Quando
você faz um filme, você tem que ser um pouco cada
um deles: homem, mulher, velho. Ou sentir-se estar no lugar
deles.” Ou como se livrar de preconceitos e não
classificar as pessoas: “Quando você diz que algo
é típico, você mata o que há de
singular nela. A pessoa repete a ideologia que existe, mas
sempre tem algo de singular: nenhuma voz é igual à
outra, nenhuma memória é exatamente igual à
outra, embora possa repetir muita coisa”.
O livro tem comentários breves do diretor sobre cada
produção, fotos em preto e branco de bastidores
de filmagens e dados bibliográficos em um índice
cronológico. O formato do livro é pequeno, feito
para ser lido rapidamente, o que acaba atraindo não
só o pessoal da área, que pode ir direto no
que interessa, mas também os fãs de Coutinho.
Serviço O Cinema Segundo Eduardo Coutinho
Autor: Claudio M. Valentinetti
Ano de Lançamento: 2003
Editora: Cine Academia
Série: Cadernos Cine Academia
110 páginas |
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